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COSMOS, a partir de Witold Gombrowicz   

No texto de  Gombrowicz parecem existir duas dinâmicas paralelas: a construção do sentido das palavras e das ideias, e as variações que este problema cria no campo emocional, a culpa e o desejo. Estas duas linhas de desenvolvimento temático do texto organizam também a concepção do espectáculo, caracterizado por uma encenação pautada, por vezes musical. Mas, sendo um espectáculo ordenado é, também, um espectáculo sobre o caos. 
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Mas parece existir uma passagem de um registo musical e artificial para um registo mais verosímil, espontâneo, natural, na cena do piquenique, afastando-se do rigor do esquematismo simbólico ou poético, da rítmica, dominada pelo tema da construção de sentido em função do tema emocional. As personagens mostram o que pensam e o que dizem pelo que falam, habitam o espaço com ordem, relacionam-se entre si com ordem. Quando, ao início, as personagens sugerem uma abordagem do absurdo (sobretudo os dois amigos recuperam, à sua maneira, a ideia de espera de Beckett) e um imaginário do teatro de leste, na cena do piquenique as personagens lembram o desespero, o cansaço, a perda de esperança das personagens de Tchékhov. (...)

Pedro Manuel in www.omelhoranjo.blogspot.com

 (...) O modo como são geridas as mudanças de acção/intenção, os momentos de tensão, a angústia, a solidão contribuem para um resultado final coeso e estimulante. A exploração dos diferentes espaços físicos e emocionais corrobora a empatia entre a encenação e o texto de Gombrowicz.

(...) O grupo de actores oferece-nos momentos de alto nível interpretativo transpondo para a cena o enigma emocional e as oscilações e contradições que as personagens parecem evidenciar.(...)

 Ana Aguiar in A CAPITAL 1 de abril de 2005

(...) A leitura de Cristina Carvalhal vai ao encontro deste universo expressionista, onde o grotesco tem o mesmo peso do trágico. O espaço cénico (Ana Limpinho e Maria João Castelo) é marcado pela ideia de “mundo às avessas”, pois os objectos que distinguemm os vários lugares da acção sinalizam, na sua incompletude, uma incapacidade significativa e, através da sua estranha disposição, a permanência do caos (sensação reforçada pela extraordinária iluminação morbidamente esbatida de de João Paulo Xavier. (...)

 Miguel-Pedro Quadrio in Diário de Notícias 13 de Abril de 2005

  (...) Na profusão muito variada de adereços cénicos encontramos elementos simbólicos como um gato que oscila entre objecto de decoração, reduto de prazer e sugestão de animal, jarros que deitam folhas, flores que caem do céu, morangos presos às pontas das árvores (tão vermelhos como os lábios das mulheres e os rabanetes na mesa – o vermelho como ideia medieval de pecado e morte?), peixes presos a um fio, paus suspensos, fórmulas matemáticas nas paredes, chaves maiores do que a fechadura, árvores sem raízes, portas sem paredes, uma escada que não leva alado nenhum e, sobretudo, uma floresta que invade a casa e a plateia. Pela sua estranheza, podemos interrogar para que servem estes objectos?

A verdade é que Cosmos se desenvolve a partir de uma simbologia que quase podíamos dizer exacerbada, sugerindo um caos a necessitar de ser organizado. E o papel do espectador é, então, essencial, uma vez que terá a oportunidade de seleccionar o que de mais relevante exista para encontrar a ordem, funcionando como um detective que procura identificar não quem fez mas porque fez. (...)

Tiago Bartolomeu Costa in Sinais de Cena nº3, Junho de 2005( P. 98 -100)